Sexta-feira, Maio 6

Dia seis. Quase dia das mães. Status mental: destruído. Status corporal: mutilado. De um lado do nariz, catarro, na escrotice viscosa que o é. Do outro, sangue fluindo ora sim, ora não. Os ossos, especialmente os dos pés, doem, como se alguém os segurasse e os apertasse constantemente, provocando uma dor daquelas que não vingam. Daquelas que não é bom de doer. Exemplos: dor nos dentes. A programação pro fim de semana se resume em um verbo: suportar. Quando penso naquelas sombras chegando perto da porta do quarto, os olhos semicerram, numa tentativa de, simultaneamente, fingir dormência e ainda assim cuidar do que acontece ao redor. Aquelas sombras malditas que invadem o meu quarto todas as noites me beijam e dizem boa noite. São iluminadas, as sombras. O melhor caminho pra enxergar escuridão é dormindo de olhos abertos, repeti duas vezes. Por prevenção, sequer dormi. Repeti mais algumas vezes o mantra. Baixinho pra eles não ouvirem, entrarem pelas frestas, pela fechadura, pela janela, saírem do armário, vibrarem nas cordas do violão, surgirem nas luzes de natal, escreverem nos meus rascunhos, deitarem ao meu lado. Um sentimento: ingratidão. Pode soar supérfluo falar de ingratidão ao referir-me a tais obscuridões, mas mais supérfluo seria continuar com isso. Tenho a vontade de machucar a casa, agora. De quebrar os vidros, chocar copos contra pratos, soltar o cachorro no terraço. Tenho vontade de me machucar e culpá-los. A casa agora: iluminada. A casa sempre: iluminada. Sempre que vierem, nobres visitas, tenham a certeza que, numa mesura, serão bem atendidos. Terão comida, bebidas caras e uma boa conversa pra parir. Assistirão a derrota do mundo contemporâneo, choramingarão as depressões da vizinhança e abraçarão suas próprias pernas procurando algo que parece verdadeiro em sua raiz. Algo que seja visceral. Outra vontade: vomitar. Esse lugar ainda é o meu lar, afinal. Acredito suportar isso pelo tempo necessário de concretizar uma vida independente. Acredito também, na ideologia nudista que criei dia desses, observando o mar do bairro: sem isso de debaixo dos panos. Sinto saudades da abertura. De estar num ângulo tão obtuso que o doutor, o doutor de mim, ele sim, consiga enxergar algo além de um ser violado e assustado. A vida se torna aceitável, e mais que isso, bonita, quando doutor vem me tratar. Diz umas palavras bonitas sem bebidas caras e conversas paridas sobre o crescer do dólar. Escuta o que vem de dentro, perfurando o negativismo cético das relatividades. Se e quando parece que vai e pode doer, doutor vem e limpa o sangue de meu nariz em sua camisa xadrez cinza-rubra. Sem isso de debaixo dos panos. Uma chamada: doutor. Uma saudade: suas injeções e relampejos de verdade escrachada e, ainda assim, plena. A meia luz do quarto era tão alucinógena quanto as sombras que o habitavam.

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