Sexta-feira, Abril 22

The Healing Theory

Germano fala sobre possessão. "E não é como se eu visse nela, Virgínia, um pouco de mordacidade, ainda que seus olhos digam tanto e ao mesmo tempo, como éter, sejam voláteis e inconcebíveis. Meu amor cresce em proporções exageradas desde que Virgínia voltou do outro continente, ainda que prometesse abandonar-me a meus banquetes, sempre em solitude, jamais com ela. Agora, sou adepto da teoria da revolução: nosso amor, meu e de Virgínia, cresce em proporções incalculáveis, e, por isso, Germano, eu, cara muito maneiro, sabia que a revolução se aproximava. Mantenho ela, meu cajueiro fiel, em atrito permanente de minha cabeça à cabeça dela, rijas, sempre juntas, como as nojentas irmãs siamesas da vizinhança. Mantemo-nos sempre juntos, ainda que em pensamento. E ela, feiticeira de magia branca, ainda que longe, possui a mim em estado dormente, latente; aquela louca bruxa possui meu corpo, me banha em sangue e fel e eu, cheirando à morte, jogado aos urubus, recomponho-me, cavalheiro que sou, e refaço meu banquete. Ontem Virgínia me pediu suco de clorofila. Não soube o que dizer, o que fazer, Virgínia sempre fora, apesar de uma Gaia naturalista, o retrato do futuro disfarçado de passado. E no futuro, a gente via a revolução. Eu via Virgínia, vestida como mãe natureza casta, em meu futuro, sorrindo, esbelta, nacional, completa, vindo a mim. Aproveitando o êxtase, dou-me em corpo e alma pra ela, como um verme de porão, infiltrando-me em sua divindade, e, com ela, governando o que chamávamos, chamamos, de futuro. Parecia conspiração, mas eu, Germano, o cavalheiro dos bons costumes, apreciador de um cajueiro excelente, tinha, entre meus soluços de linfa e pus, um medo ridículo, mas também impossível de esconder, de todos os outros vermes que adentrassem a aura branca-acizentada, às vezes creme-perolado, que minha Virgínia exalava. O medo, esse desditoso camponês infiel, seguia Virgínia também, e sabíamos, sabemos, que a razão real e palpável não existia. Tínhamos medo de tudo por causa da perfeição da sucessão dos fatos. Eu chorava enquanto cortava minhas cenouras em pedaços menores que coubessem na minha boca, chorava lágrimas miúdas pelos cavalheiros elegantes que já houvessem passado por Virgínia em sua viagem ao outro continente, chorava que todos eles me pareciam tão mais sujos e, ainda assim, poderosos que eu, Germano, o maneiro, o revolucionário. Pagaria moedas de ouro pela sua castidade novamente. E, com meu corpo em sacrifício, pagaria com minha pele pelas pernas de Virgínia jamais invadidas no passado. Pagaria pra nenhum daqueles homens jamais chegarem perto dela de novo. Em seu passado, em seu histórico carnal. E eu enraivecia, vinha uma melancolia absurda em meu semblante, e nunca sabia o jeito certo de extravasar tanto pus guardado em uma só ferida. Parecia nojento, você pensaria, falar de feridas mas mais nojento era lembrar de Virgínia quando não fora minha. Ela o era, agora. Mas vá, vá logo, Virgínia bate na porta, agora, espera na sala de jantar o banquete dos deuses para minha moça de família. Com ambrosia em sua taça, você pode ter certeza. Tudo de santificado para meu cajueiro fiel, e digo meu aos quatro ventos, aos continentes sabidos e aos desconhecidos. Digo meu com a força de minha garganta e pensamento, que a força que tenho despejo em minha propriedade. Adivinhei que ela era minha no momento que ela perguntou."

1 sintomas:

Marco Antonio disse...

que romantico. melancolia, valorização da inocência e pureza, forma contida e bonita. Ímpeto canalizado. Eu gosto. Vejo cores (aqueles drogados. UHAHUAHU mas vejo mesmo!) e ouço piano, assim bem rotomada ao clássico.
=)