Quarta-feira, Março 16

Tinha um costume estranho e tiquinho masoquista, sei disso, de escrever cartas que jamais enviaria. Abria aquele caderno, máquina de escrita, notebook, folha velha, guardanapo, tudo era uma desculpa pra escrever um punhado de pensamentinhos soltos que eu mandava pra mim mesmo, e, sabendo o que leria, amassava antes de chegar ao destinatário. Eu me olhava no espelho, e, ah, eu me olhava no espelho: um náufrago ilhado que nem ligava de que jamais ia voltar pra terra firme de novo. Sorria banguela, que a barba crescia enquanto os pensamentos eram nublados. E o Sol brilhava no horizonte caribeño. Curtia de verdade aquele esquema, pensar, escrever, mandar, doer e então doer de novo.
Hei de te querer, mon petit souffle divin, dizia uma das cartas as quais nunca enviei. As cartas as quais nunca enviei eram secretas. Eram um baú de frases obscenas, letras de música, fotos, desenhos, e tudo sempre na maior sobriedade apesar de quase sempre bêbadas. Ah, as cartas as quais nunca enviei.
Quando o pensamento era pesado, fundo, o que geralmente acontecia, já que, segredo: sou fundo como um buraco negro. Sim, quando o pensamento era fundo e pesado, eu escrevia bem rápido, apagava, escrevia de novo e procurava um jeito de amansar tanta força que me espancava, eu me sentia espancado, sabia? Procurava um jeito de não soar tão forte, que ninguém levaria a sério um rapaz tão apessoado e sorridente como um paraíso falando de tanta escuridão.
Uma vez, não há muito tempo, escrevi uma fábula, de um principado. E os príncipes governavam todos os nobres mortais. Oh, eles jamais imaginariam que castelo à dentro, tomavam banho gelado como fuga de corpos quentes. Os plebeus olhavam com desdenho, "ah, os plebeus. Sempre desditosos." E a música ecoava de dentro do castelo. Oh oh oh oh. Oh oh oh oh. You are like a symphony to me.
Como um sopro divino, a luz do céu da sua boca tráz vida aos pontos de meu corpo, dizia outra, que pensei agora. Nunca escrevi, pensei agora.
Enviar-lhe-ia flores se me fosse cordial da parte, mas além das cordialidades, dessa vez te mandaria em mãos se acordado estivesses. Dorme agora, que o vento é forte nessa madruga de quarta 16 de março, meu pequeno sopro divino.
"São 3 meses em que, embaixo de lençóis quentes para um verão ameno do Arvoredo, meu olho cruzava com o teu olho e a gente se olhava de um jeito que a gente nunca tinha se olhado antes, e daí por diante, a coisa cresceu de um jeito desenfreado bizarrofreak que a gente parece que saiu de um romance tórrido de outro século. São 3 meses em que eu ando escrevendo ruim como uma mula, ou até uma mula escreveria melhor, não sei, porque parecia tudo tão mais fácil quando era só doer e amassar a carta que jamais chegaria em suas mãos. Hoje minhas mãos tocam as tuas, meu amor, minhas mãos tocam as tuas. E esquentam, e suam, nossos corpos suam enquanto caímos na imensidão um do outro, vendo corações ao invés de olhos, sendo desse jeito megabrega e admitir isso, admitir que é superbrega estar falando que as mãos se atam e a vida é bela, os passarinhos cantam no fio elétrico enquanto a gente tira a roupa e faz sexo selvagem. E é estranho, há um tempo atrás, quando as cartas eram muitas delas, eu falava do sexo selvagem de um jeito orgânico e tipo que o resto vá pra casa do caralho, hoje vejo nele, uma inexistência tangível, que virou só amor e perdeu essa parada de sexo. E procuro jeitos infinitos de terminar essa carta que talvez jamais envie também, já que todas as orações que borbulham na minha mente só terminam em amor e eu queria ser original, queria dar o reino imaginário de Luiz Ricardo só pra ti embrulhado numa fita dourada e ornamentada com flores caras. Fodeu: foi tudo de uma vez só. Dá-me outra vez teus olhos que já não sigo sem eles, dá-me tua voz doce em meu ouvido e mãos cálidas pra amaciar a voracidade que me habita. Me dá a calma, a alma. Dá-me, também, que dou-te."

3 sintomas:

Davi Scherer disse...

isso não é papo de bêbado, eu sinceramente achei essa postagem o melhor texto que já li em um blog.

Marco Antonio disse...

eu já tinha lido, acho que quando tu postou. Eu gostei, acho que o conteúdo é muito próprio teu e a forma mudou um tanto. Assim pode ser melhor!
(L)

lola disse...

me explicaram outro dia que escrever pode ser um mecanismo de defesa, sublimação, assim dizem os psicanalistas, foi o que entendi, a gente inconscientemente desvia nossos impulsos desses bem do mal pra alguma coisa que engrandece, tipo escrever. e a gente escreve coisas tão bonitas mas tão doídas e depois fiquei pensando que quando as coisas que são de verdade bonitas estão aí ao nosso alcance a crise literária nos chuta a canela, o fígado e o saco e penso que sim o grande de tudo isso é a capacidade de senti-lo, mas me choca um pouco, que eu tenha que escolher entre um e outro sabe? pensei nisso te lendo, bonito. perdoa tanta divagação?