Foi bem legal que daí, ao pé do telefone, ao vigésimo oitavo dia, contei uma história pra ele. Sim, sabe, na verdade sempre tive esse probleminha de ter muito o que falar, que daí isso ajuda na hora de improvisar. Sim, ele me pediu uma história no telefone e eu contei, eu contei pra ele uma história que era mais ou menos assim, era uma abelha. Que colhia mel todo dia, a polinizadora master da colônia das abelhas de uma colméia qualquer. Uma abelha que não suportava mais ser abelha ordinária e um dia se perdeu na noite. Nessa noite, ela vagou bastante, vagou pacas. Ela vagou que nem doida procurando voltar pra onde ela conhecia tudo, sabe, pra perto da própria colméia e foi difícil pra cacete pra ela, que não conseguiu. Daí quando já tava quase se arrependendo cem por cento de ter investido nessa ultrapassagem de limites, a pobre abelhinha - acho falar pobre abelhinha meio contadora de histórias da quarta série - a abelha ordinária, então, viu uma luz verde. Daquelas bem fortes que emanava sozinha, sabe, daí viu que era um vagalume bonitão. Um supervagalume na noite mais escura das noites, que nem Lua tinha, acreditem, nem Lua tinha. A Lua tinha se escondido, sabe, a abelha se sentia abandonadíssima, a abandonada das abandonadas, tipos Esqueceram de mim versão abelho, sabe. Ela se sentiu segura quando viu um outro. Nem sabia se podia confiar nele mas de cara já o abordou. Já foi com ele, na luz dele, do supervagalume, e contou mil histórias dela. Contou da sua vida bregachata de abelha que odiava até o próprio amarelo e preto de suas listras, mas que ficava bonito quando tava iluminado pela luz verde do outro ali. Que era bonito o jeito que a luz dele complementava as cores diurnas dela.
Daí a noite mudou de cor. A noite era preta negra fumê escura dark lonely metal punk não sei ela achava tudo até meio gótico. E o vagalumão tinha vindo pra curar a dor dela. Então daí né, no outro dia, que já era dia, que passaram a noite toda vagando e conversando e olhando o movimento silencioso do bosque, aí chegaram na colméia dela. Acho que isso é um adeus né, ele disse, ela concordou, acenou com a cabeça e as antenas dela murcharam um tiquinho na hora que se abraçaram com aquelas patinhas finas de inseto. As antenas dela murcharam que ela tinha que ir embora. Daí ok, ele ficou bem triste, really really sad, daí ela voou atrás dele antes que ele pudesse pensar em uma sequer maneira de voltar a ser só a luzinha verde da noite escura, foram voando. Voaram pacas, que antes vagavam só, né, na noite, agora eles voavam. Voavam que as asas deles batiam de felicidade, daí eles conheceram o dia, a noite. Alternavam de novo e de novo, viajaram todos os centímetros do bosque. Fizeram milhões de juras de amor bonitinhas embaixo de uma folha que pingava orvalho e daí se qualquer um pergunta a parte mais bonita da história foi quando ele, meu amor, agradeceu meio sonolento, deu boa noite. E aí eu ninei ele, entende, o meu amor.

6 sintomas:
gato, se eu te falar que entendo perfeitamente a vida dessa tua abelha? isso de patinhas de inseto e antenas murchas, sabe? e que a luz verde é a minha preferida de todas as luzinhas? queria eu que me contassem histórias ao vigésimo oitavo dia.
sabe do que eu gosto?
de gente que tem estilo, que escreve com estilo. e o teu... nossa, é único.
admiro!
'tipos Esqueceram de mim versão abelho, sabe...'
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!
Adoro Esqueceram de mim e o jeito despretensioso como escreve ;*
É pra quando o seu livro, Gug?
Me sinto meio abelha, ás vezes -quase sempre.
Sabia que ia adorar aqui :)
Beijos!
cara. eu to meio sem o que falar assim. não pelo texto - isso eu já esperava que fosse bom e de fato tu não me decepcionou e se eu lesse isso em qualquer outro lugar eu ia dizer que tem a tua cara e sei lá, eu admiro a identidade que tu bota no que tu faz, e o teu jeito é muito-só-teu, FODA. Mas o que me surpreende mais ainda é o quanto estar afastados nos permitiu ir longe no que a gente escreve, longe o que eu escrevo do que tu escreve, sei lá, achei interessante. O que de fato não mudou e nem vai, de certeza, é a intensidade comum ao que fazemos.
fiquei com saudade de ti lendo isso aqui, amigo!
cuide-se (L)
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