Nomes eles nem tinham, talvez se chamassem Pedro e Bernardo, Maria e Lourdes, Virgínia e Germano. Deus podia nem saber que um deles podia ser a reencarnação de Hitler e o outro um travesti mal-amado. Nomes eles nem tinham, não precisavam, os nomes eram muito pouco, eles diziam, a vida era muitasvezesmaisqueisso. Eles só se encontravam nas quartas, de madrugada, no portão de um deles, porque quartas-feiras, ele dizia, que era meio de semana e ia estar tudo vazio, ninguém é muito feliz em quarta-feira mesmo, daí eles podiam se amar onde quisessem do jeito que quisessem e o outro, mesmo contrariado, concordava com as quartas-feiras tão solitárias, mas nunca sozinhas. Perdia a promoção de cinema de sábado mas ok, fazer o quê, ele reclamava bem assim, todo ranzinza e bonitão. Eles iam ser os melhores do bairro, os supermoderninhos do balacobaco, porque o amor, no tempo que eles viviam, aquele mesmo, era uma dádiva. Amar era amar, quando eles davam a mão na praça, que acontecia raramente, quando ficava tudo público e surreal, todo mundo olhava e era a atração do momento. Podiam se amar até amanhã, repetir até o fim do mês, eu te amo, meu amor de todos os amores. Todo mundo olhando sabe, a filha da Joaquina com mil olhares bizarros, querendo tripudiar os dois até chorarem de dor, porque só choravam de felicidade, de emoção e uma vez ou outra acontecia de um chorinho de dor no peito. Só que passava. Sempre há de passar.
Aconteceu assim meio de repente, ninguém acompanhou direito como começou, mas numa daquelas quartas-feiras solitárias, enquanto eles dividiam seus mundos particulares um com o outro, um querendo saber mais do mundo particular do outro, querendo transformar toda a particularidade que um tinha em pequeninas particularidades do outro, brigaram. Um queria saber ser mais particular que o outro, uma briguinha de galo estúpida daquelas de casal, se é que eram um casal, brigaram. Assim, brigaram mesmo, começou devagar. Enquanto o resto do bairro aproveitava suas quartas-feiras sendo tristes como há de ser em quartas-feiras, zapeando a tevê, picando dentes-de-alho, fazendo aviãozinho, jogando pife e truco, brigaram. Argumentavam bem queridos, porque se amavam, afinal, argumentavam coisas banais, tipo, amor, pára com isso e acalma nossa quarta-feira, te tenho aqui comigo, te tenho agora, vamos aproveitar, e o outro não queria escutar e só queria quebrar aquela muralha de pedrinhas e o portão trabalhadinho, quebrar o portão e dizer e dizer e dizer. Dizer que não importava, que mesmo que todas as flores, depois dele, cheirassem como flores e não como simples coisas que Deus pôs no mundo porque tinha que pôr, que depois dele, também, ele sabia conjugar o verbo amar em todos os tempos - especialmente o mais-que-perfeito que ele dizia que era como os dois, mais que perfeitos, também - e depois desses vários encontros, rolava isso de particularizar demais. Ele o amava demais pra sê-lo.
Depois, como sempre há de ser, veio a deprê normal de quando acontece esse tipo de coisa na vida da gente né, aquela dor que, no fundo, a gente sabe que sempre vai passar, sempre há de passar, esperava que passasse, talvez não naquela época. Naquela época, ele ficou bem mal, sabe, o bairro inteiro comentou. Um dia, viram o outro no cinema, sábado, curtindo a promoção, sozinho, cada um sujeito às suas próprias particularidades, porque a briga era bem por isso mesmo, então eles que aproveitassem, cada um cada um. Ganharam nomes, as flores perderam o cheiro e um deles desacreditou no mais que perfeito, embora sempre soubesse conjugar bem certinho o mais-que-perfeito de desamar. Daí dava quarta-feira, de noitinha, uma vez ou outra, quando ele ainda ficava acordado, porque desaprendeu também a ficar acordado até tarde, conjugava baixinho, várias vezes: eu desamara, tu desamaras, eles desamaram...

5 sintomas:
ai que visão completa, simples, visão de quem entendeu 'como as coisas funcionam'
eu gosto dessa clareza. eu amo o teu turbilhão de tudojunto, mas eu gosto dessa clareza.
é delicado e lapidado, gosto de muitos detalhes
ai. (L)
tenho eu também conjugado o verbo desamar em todos os tempos, todos os modos, como quem conta carneirinho antes de dormir.
está muito lindo, gug, muito lindo mesmo!
dói um pouquinho mais-que-perfeito emocional :(
até os teus textos - sempre mais que perfeitos - ao final das linhas acabam.
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