O silêncio que mais me assusta é o de noite no centrão. Não sei, medo de alguém sequestrar, roubar, mandar matar o que me resta aqui, esse corpo moreno de inverno sulista. O inverno aqui tá quente mas quero deixar de lado as comparações sazonais porque o fato de verão e inverno jamais se encontrarem meio que dá nos nervos, sabe? Os dois, sendo assim, tão diferentes e etcétera tinham, uma hora, de dar um cara-a-cara. Um porra, meu irmão, qualé a tua? Vai ficar aí sendo o contrário de mim, tão longe? Vem pra perto. A lei dos opostos só funciona em física intelectual e, quando meu amor chegava perto, tudo que eu podia pensar era eu mais você menor que zero vezes zero.
Mas me desculpa, de verdade. Sempre deliro um pouco antes de dizer o que acontece comigo de verdade. Tenho delirado aos montes. Sou um louquinho, louquinho. Não pensa mal de mim, não apelei pra macumba ainda, embora tenha uma galinha preta pedindo um sortilégio daqueles. Psicologia sacra, divina, eu ainda consigo concentrar todos os delírios de um rapaz mal-amado comum em meia horinha/semana. Eu ainda não falei o que aconteceu e o inverno acaba hoje.
Não lembrava que o seu cheiro cheirava assim. Que ele tinha o gosto do paraíso, da chuva. Sabe, foi bem nessa semana normal de cultura exacerbada, que eu me permiti lembrar o que era se encher de um vazio gostoso. Um amor doce, suave, cheiroso... Ai, amor. Teu cheiro me desconstrói todo. Veja que eu até tô rindo, assim, de canto de boca, aqueles risos que se evita porque fica meio cafona demais. E pudera ainda eu sentisse ele em todo lugar, em toda boca que eu beijasse, em toda bebida que eu bebesse. Vou do céu ao inferno em um raio de luz incandescente e esse cheiro me persegue em toda rua que eu corro pra fugir. O silêncio do centrão hoje tá brabo.
Os sinos da catedral emudecem pra me ouvir. Baby, let me taste you one more time. Let me be, let it be. Never set me free. Eu gritava, mesmo que por dentro. Eu tinha vontade de espernear. De prender a respiração até ficar roxo, de pedir ajuda prum cartomante fake, de chorar até a minha mãe dizer chega e o fantasma do meu avô dizer que homem que é homem que não chora. Vovô não sabia que tinha um neto que chorava mais que carpideira em dia de inspiração.
Agora sou doce. Sentir por sentir, conhece? Como se um quadro negro tivesse imprimido nas paredes claras e nos cantinhos escuros da minha mente coisas do tipo se permita, preencha o vazio com o silêncio. Se não for pra ser, não é pra ser, sabe? Rapaz, a vida é mil vezes mais que isso. Viver pra nada é um tum-tum no coração que, cuidado: uma hora enfarto.
Pensei em milhões de onomatopeias pra descrever o que eu sentia naquela hora em especial, barrabás, Ave, pow, crash, zip-zup. Nenhuma delas chegava um centímetro perto do turbilhão de emoções que se instauraram bem na quebra mundo real versus silêncio com aquela criatura. Porque sabe, eu nunca prezei o silêncio, ele me era um tanto arrepiador, sei lá, um tipo de filme de terror mudo. O silêncio. Si-lên-cio. Gosto do jeito que essa palavra soa, entende, cada letrinha ajudando a outra. Queria letrinhas pra me sustentarem enquanto a gente andava e a chuva ainda não corria.
Já falei de meus delírios? Constantes. Os sinos da catedral batendo loucamente, milhões de pessoas falando nada e ao mesmo tempo falando tudo, o último dia de inverno antecedendo uma primavera fértil, a música vibrando na minha garganta, o cheiro doce de meu amor, o centrão todo choramingando um adeus que nunca aconteceu, crash, pow, let it be, never set me free. Delirava. Você me amava. Só em pensamento. A cidade calou-se no barulho estrondoso de um doce vazio com gostinho de nada. E a primavera não encontra o outono tão cedo.

5 sintomas:
Que coincidência... AMO esse teu cantinho (:
volte sempre poeta :*
"E a primavera não encontra o outono tão cedo." Depois desse turbilhão de sentimentos, não haveria frase melhor pra encerrar... entrelinhas que encantam! Adoro sutilezas! Vc tem o dom! Muito bom seu blog, parabéns!
"Psicologia sacra, divina, eu ainda consigo concentrar todos os delírios de um rapaz mal-amado comum em meia horinha/semana."
o melhor dos teus textos é que eles nunca parecem ficção, independente do que digam...
e eu também ando pensando muito nos verões quentes e outonos assassinos
Nossssssa. A tua narrativa está encantadora, você encontrou teu texto, parabéns! De novo e de novo.
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