Quinta-feira, Setembro 30

Daí a gente tomava banho, e fazia sexo animal. Tinha um intervalo de dois beijos, lágrimas, muitas delas, e daí de novo era só flores. Tinha algo que pairava e rodopiava no ar daquele apê e com certeza não era a vizinha barulhenta que agradecia algum deus de alguma religião de alguma crença qualquer. Tudo, baby, eram qualqueres, quando as flores desabrochavam por cima dos olhos e a gente era só carinhos. Nossos carinhos tinham uma cor doce-amarga. Eram multicores, multiformes, multitudo. O nosso tudo era infinidável, baby. Fazíamos o sexo perdurar e víamos, nele, capacidade de redenção, porque éramos/somos, muito libertinos. Temos capacidades loucas com nossos corpos, achava que tudo era questão de química: errar é humano. Pensei em mantra, filosofia, romance, apelei pra espiritismo, apelei mesmo, criei umas teorias que desbancariam a conspiração do homem na Lua. Nossa poesia chorou e desceu pelo ralo. A gente tomava banho e tudo acabava em sexo. A solução de nossos problemas a um pau de distância. É meio violento falar assim, dangerous way of life, acho que ofendi a vizinha quando gemi. E tinham as flores num intervalo, a gente só se olhava. Olho a olho, aprendi a olhar nos olhos com você, talvez, e nunca cheguei a agradecer. Eu procurava, admito, procurava incessante um defeitinho sequer naquele jardim florido que tu me eras. Confesso que hoje em dia descobrir que eu via flor em cacto não é confortável, mas aceitável. Hoje somos aceitáveis pra uma vida comum. Os tchauzinhos na hora d'ir embora, os silêncios, o olha esse outro aí, trocando de roupa no meio do saguão. Viramos aceitáveis. Duas porras de metamorfoses, eu lembro quando éramos dois pontos de interrogação, lembro bem, e mesmo assim a gente se descobria. No sexo, é verdade, mas sempre se descobria. Nosso amor, às vezes eu creio, que tenha sido só pelo corporal mesmo. Dois atores na flor da idade e muito o que libertar de dentro. É uma pena que, do nosso jardim, você tenha pego os cactos e eu o orvalho. E as flores sempre lá. E florescia. Vejo flores até hoje, onde quer que vou. Flores multicores, multiformes, multitudo. Uma psicodelia infinidável que é um mundo bizarro com e sem você. Acho até pós-dramático misturar sexo e flor. Daí o banho sempre tava frio demais, ou quente demais. Culpa minha, eu não sabia lidar com meios-termos. É meio ingênuo se apegar nesses detalhes minimalistas, é que eu tentei, tentei mesmo, de tudo pra ver a animalia que rolava entre a gente aparecer além do pensamento. Tudo que eu via era bem-me-quer-mal-me-quer. Hoje somos meio assim alheios, né, sem floreios. Hoje, na verdade, veja só, cresceu meu primeiro espinho.

5 sintomas:

muitoentediada disse...

"aprendi a olhar nos olhos com você", "Hoje, na verdade, veja só, cresceu meu primeiro espinho". trechos incríveis.
e apesar do texto mencionar uma conexão, na maioria das vezes sexual, não deixo de achar que tudo isso é simplesmente suave, fortemente poético. :)

Luciana Donadeli disse...

O seu texto invade. Fica difícil sentir depois.
Obrigada

lola disse...

Nossa poesia chorou e desceu pelo ralo. Acho que a minha também. E sabe, que algumas das tuas estórias me encaixam com perfeição na vida? Ou então é a forma como as vemos, não sei. Mas o fato é que tudo sempre acaba em sexo, mas um sexo que pode significar dezenas de sentimentos diferentes.

Mr Bobby Jones McGee disse...

espinho nada, em ti eu só vejo essas flores, essas raridades, isso que eu só posso chamar de arte de sentir, porque é belo, verdadeiro, puro, natural, fluente e só teu.
esse texto me agrada em especial entre os teus, ele é extremamente a sua forma de exprimir, sabe, é fortíssimo, sem rodeios, turbulento, meio amargo e um tantinho irônico ainda. Eu vejo muito a tua grandeza e, não quero falar de capacidade, mas, isso é um reflexo do que tu tem em ti e do que te torna quem tu é (TO SÓBRIO, ME RESPEITA?).
ENFIM, isso que não se nomeia, que tu tem em ti e exprime (nessas preciosidades, como esse texto), eu só posso admirar e me sentir bem de tê-lo por perto (L)
(comentário cafona uahaauah)

mayara mattar disse...

me identifiquei de um jeito que até nuca arrepiou